| OCORREU NO DIA DOS NAMORADOS EM 2006 Entrei na Tabacaria do Campo, na esquina que da praça da República dá acesso à rua da Boavista, para registar o meu habitual boletim de uma só aposta no Euromilhões, já que, pelo mínimo possível, nunca desisti de sonhar com o auspicioso dia em que deveras poderei ser rico. Enquanto esperava que os clientes à minha frente fossem atendidos, meu olhar foi inundado pela benquista pose do saudoso e saudável mestre Agostinho da Silva. Logo por cima da foto, em maiúsculas garrafais, li o vocábulo daquilo que sou, na fala e no jeito, sem tirar nem pôr: "TRIPEIRO".
Tomei a revista do expositor e folheei-a até me deixar seduzir por alguns tópicos do seu interessante conteúdo que por alto apreciei. Daí a decidir-me gastar a ínfima nota em curso, sequer pensei duas vezes: dois e três são cinco e não perdi mais tempo. Então, desprendido entre a brisa fria da manhã, passando defronte à estátua do Padre Américo e do busto de Guilhermina Suggia, aqueci a alma e sorri, sorrindo quiçá tal e qual como o inesquecível professor sorri na capa da edição de Fevereiro. Com o meu fecho de correr - só muito raramente hoje em dia uso botões - cogitei a empolar o sonho: - Queres ver, António, que de uma assentada vais lograr o prazer da leitura e o da almejada fortuna financeira?
Eram 9 horas da manhã e, esplendidamente enlaçado num dos bancos do jardim, estava um par de jovens a beijocar, indiferentes à incomodidade do mau tempo que fazia. Reflectindo, sorri comigo mais ainda: São Valentim repentinamente acordou-me para os meus belos tempos de impulsivo namorado, tantos anos depois, num cinzentíssimo 14 de Fevereiro, enquanto algumas das namoradas que tive me perpassavam no cerebral ecrã da recordação.
No momento em que escrevo, quinta-feira 16, ainda as sete mágicas bolinhas da sorte não rodaram por forma a encaixarem-se nos quadradinhos do meu palpite, mas já ganhei, por apenas três euros, uns quantos aprazíveis momentos de leitura e deliciosa reflexão. Empolgado pela catadupa de ideias que me atravessaram o cérebro, resolvi, inspirado e fundamentado nos textos de tão atractivo mensário, criar este sítio na Internet, persuadido que a direcção da revista, após a apresentação que lhe submeterei, me permitirá divulgá-lo, mantê-lo e continuá-lo.
Ah, caramba, se o Euromilhões me enchesse num ápice os bolsos, bem e de imediato "O Tripeiro" beneficiaria do milagre da santa coincidência, e não só...
António Torre da Guia
PS = Em tempo, logo que conferi os números apostados no talão do Euromilhões, verifiquei que a sorte de mão-beijada persiste em nada querer comigo. Todavia, muitas graças à vida tenho de dar pela saúde que me tem proporcionado, e isso é deveras uma sorte assaz prodigiosa. |